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terça-feira, 16 de setembro de 2014

A nossa lógica não é a de Deus




Ao ouvirmos o Evangelho deste domingo (Mateus 20,1-16) somos capazes de pensar que aquele proprietário terá cometido uma tremenda injustiça, por pagar aos operários da última hora igual salário aos que trabalharam o dia todo.
A nossa lógica de pensamento baseia-se em determinados princípios que não são respeitados na parábola que ouvimos. Mas é nesta ótica provocatória e contrária à lógica da conduta do patrão que está o cerne doutrinal desta narração, aquilo que de fato, Jesus quer nos ensinar.
Jesus quer denunciar, de uma forma dura, a religião dos “méritos”, ensinada pelos guias espirituais israelitas. O povo, doutrinado pela classe sacerdotal, havia-se esquecido de Deus bom, pai, amigo fiel, anunciado pelos profetas e substituiu-O por um Deus distante, legislador e juiz implacável.
Os fariseus sentiam-se seguros porque “trabalhavam muito”, observavam escrupulosamente as prescrições da lei, toda a sua ação de fidelidade era registada como “mérito” que passaria a constar do registo do céu, para ser exigida a Deus no momento oportuno.
Deus não se cansa de ir ao encontro do homem, mesmo quando este se esquiva a todos os encontros, mas não retribui pelos méritos de cada um. Se aceitamos a obrigação de observar mandamentos e preceitos, que aos nossos olhos parecem não ter explicação, para sermos privilegiados pelo chamamento de Deus, estamos enganados. A única recompensa, na verdade, reside na fidelidade ao Senhor. Todas as hesitações em seguir os Seus caminhos são ocasiões perdidas para se ser feliz, para usufruir primeiro e mais tempo os dons de Deus.
A reação que atribuímos aos operários da parábola reproduz a nossa oposição diante da bondade e da generosidade de Deus. Quem ainda trabalha para ganhar um prêmio, acredita num deus pagão, comerciante, contabilista ou justiceiro, mas não no Deus de Jesus Cristo.
O senhor da parábola está preocupado em que não falte o trabalho a ninguém. Então, como é que nas nossas comunidades ainda pode haver pessoas que se comportam como simples espectadores? Não podem ser apenas alguns a empenhar-se em certos serviços da Comunidade. O Senhor da vinha está à espera que cada um de nós se interrogue sobre a tarefa que deve desempenhar na comunidade e que deixe de ser ocioso.
Isto exige uma mudança radical no nosso modo de pensar.
Não será que muitos de nós, cristãos, nos consideramos “justos” mediante a rotina das nossas práticas religiosas? Não podemos merecer nada diante de Deus, só podemos receber dons e agradecer. Por que não ficarmos felizes se um dia alguém, mesmo que tenha errado por completo na vida, venha a receber de Deus o dom da salvação?
Isto leva-nos a refletir sobre a nossa atitude na comunidade onde estamos inseridos. Nela não devemos exigir mais por termos sido os primeiros a chegar. Não devemos nem podemos sentir-nos os privilegiados por nos termos convertido primeiro a Cristo. Não nos queiramos impor aos demais porque chegamos antes, não permitindo que todos concorram para tomar novas iniciativas que visem o bem comum. Muitas vezes há quem não trabalhe nem deixe trabalhar os outros.
A grande alegria de todos deverá ser o encontro com Jesus Cristo.
S. Paulo, como ouvimos na segunda leitura(Filipenses 1,20-24; 27), sente-se comovido pelo apreço e amizade demonstrados pelos cristãos de Filipos e revela as suas sensações mais interiores e mais afetuosas. Ele que havia trabalhado muitos anos pela causa do Evangelho, que tinha aguentado sofrimentos e contrariedades sente-se, agora que está preso, bastante cansado e começa a pensar no seu encontro definitivo com Cristo. Nesta altura afirma que seria melhor para ele morrer, mas sente que a causa do Evangelho ainda precisa dele. Então, num gesto de generosidade, declara-se pronto a adiar o seu encontro com Cristo, a fim de continuar a servir os irmãos e afirma que para ele «viver é Cristo, e morrer um lucro». O seu prêmio era a própria alegria de ter encontrado Cristo.
Nos trabalhos ou nas contrariedades, nos momentos de euforia e entusiasmo, na vida ou na morte, o que essencialmente importa para o cristão é, pois, viver em conformidade com Jesus Cristo.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Caminhada pelo deserto, caminhada do discípulo com a cruz.

 
O texto da primeira leitura revela as dificuldades que o Povo da Primeira Aliança encontrou na sua caminhada. É dura a caminhada para a liberdade, assim como é muitas vezes dura a busca de sentido e do fundamento da vida.
Mas este belo texto é também revelador da atitude do homem frente à busca de sentido e de fundamento. Quais as razões profundas, a razão de ser, o objetivo da vida? Sozinho ou até aberto aos outros mas apenas no horizonte do precário, do superficial e do imediato, sem sede de verdade, do compreender a vida e a história como um dom, o ser humano não encontra respostas satisfatórias.
 
Mas sobretudo a resposta à sua fragilidade, ao mal, ao sofrimento e à morte! Será para muitos mais fácil encontrarem a revolta, um sem fim de criticas e de aspectos negativos que o tornam presa fácil do mal, do egoísmo e do pecado.
Deus vem ao encontro do ser humano com uma lógica que permite que este possa olhar mais longe, possa olhar o céu, possa olhar para a solução que Deus lhe oferece. A solução passa pela docilidade, pelo acolhimento e pelo compromisso com o Plano de Deus. Passa por assumir a sua humanidade como um dom que se constrói na busca da vida, da liberdade, da paz, do sentido último e definitivo em Jesus Cristo, que no seu mistério Pascal introduz a nossa fragilidade na plenitude da vida e da glória.
Cristo Jesus faz-se companheiro da nossa jornada. Ele vem ao encontro do ser humano. O seu amor pelos homens é tão grande que se despoja e se faz servo. Sendo de condição divina, sendo Deus, faz-se Homem e despojado. O amor é assim. Como um pai e um mãe que para falarem ao seu filho ou lhe manifestarem ternura têm de baixar-se para se colocar ao seu nível. Toda a sua vida é de despojamento: nas palavras, nos gestos e nas atitudes.
Jesus despoja-se numa proporção assombrosa, num mistério de amor só compreendido pela fé. E esse despojamento vai até à cruz, à morte.
Na cruz de Cristo é revelado o amor do Deus trino e uno. Até onde chega o amor de Deus que se torna assim tão visível, tão humano e tão denso. Mas é também revelado o próprio homem. Quem é o homem para que Deus se faça igual a ele e dê a vida por ele.
Por isso Jesus Cristo é a chave de interpretação do ser humano. E é a resposta à sua caminhada na busca de sentido e de fundamento. Assumindo toda a fragilidade humana revela que o projeto de Deus é um projeto de sentido, vida, de santidade, de liberdade, de salvação: é um projeto de glória.
A caminhada de Deus em direção ao Homem encontra-se na Cruz. Deus, em Seu Filho Jesus Cristo, faz-se doação total e resposta última e definitiva ao homem.
O caminho do Homem para Deus passa pela cruz. Na cruz o Homem encontra a resposta plena à sua profunda ânsia: resposta ao sofrimento e à morte. E como Jesus Cristo, o Homem, é convidado a fazer a descoberta da vida e da glória na obediência total aos desígnios de Deus e seu projeto de liberdade e felicidade plenas.
O discípulo é convidado a olhar para Cristo crucificado e comungar com o Seu projeto e fazer suas as mesmas atitudes.
A Cruz passa a ser a lógica dos seus discípulos. Nela, os discípulos, compreendem a vida como um dom; a tarefa de ser disponíveis, construtores da verdade e da liberdade.
Na cruz, o discípulo, compreende que optou por dizer não ao egoísmo, ao pecado, ao mundo da mentira, a uma vida fácil e sem exigências de humanidade. Compreende que traz consigo as exigências da Cruz. Compreende e assume a vida pautada pela abertura a Deus e no compromisso com o seu projeto. Testemunha e faz-se cooperador da verdade. Tem audácia profética da denúncia do mundo da iniquidade e da desobediência a Deus. Torna-se discípulo pronto a dar testemunho de Jesus Cristo. Assume sem medo as consequências da perseguição, do sofrimento e da morte. Crê com firme esperança que essa Cruz é esperança de ressurreição e glória.
A partir da Cruz o discípulo compreende como lhe é pedida uma atitude de acolhimento, de entrega e de compromisso com a Boa Nova da vida, da misericórdia e da entrega.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Importância de escutar a voz do Senhor.


 

 Como a voz de Deus é a voz do melhor dos pais, é sempre caminho certo de felicidade para seus filhos. Do escutar e seguir essa voz depende todo o bem-estar humano: paz, alegria, amor, tranquilidade, verdadeiro progresso social, encontro da Verdade! Por isso o refrão do Salmo responsorial de hoje nos recomenda: «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações» (Salmo 94).
Através do Profeta Ezequiel (Ezequiel 33,7-9) o Senhor diz-nos que devemos ser como sentinelas perante nossos irmãos, para avisá-los dos possíveis perigos que podem correr. Não podemos ficar indiferentes perante o mal. Esta atenção e correção são de tal forma importantes, que, se não a cumprirmos, diz-nos o Senhor, ficaremos responsáveis pelas desgraças terrenas e eternas dos outros «Eu pedir-te-ei contas da sua morte».
São infelizmente muitos os desvios doutrinais e morais que tão descarada e levianamente se divulgam, ao ponto de serem apresentados, por vezes, quase como virtudes. Perante tal descalabro ninguém poderá ficar indiferente. Os mandamentos do Senhor, que são sempre caminhos de felicidade, não mudaram. É urgente anunciar as leis santas do matrimonio, a fidelidade e castidade conjugal, a virgindade até ao casamento e denunciar os enganos que são os divórcios, a aberração das «uniões de fato» e «casamentos» homossexuais, o crime hediondo do aborto, o uso e divulgação dos mais variados anticonceptivos, mesmo junto da juventude a pretexto de uma educação sexual que, em tais circunstâncias, não existe; a pouca generosidade na aceitação dos filhos, a falta de uma educação integral de tantas crianças, o pouco e por vezes nenhum amor que se dá aos filhos, a leviandade no vestir com modas indecorosas, os namoros pecaminosos, a literatura e filmes imorais, a tão pouca atenção dada aos verdadeiros valores, as injustiças sociais por parte de patrões e operários, tanto tempo perdido, quando o Senhor, que tudo possui, não nos engana e é nosso Amigo. É Ele quem nos manda «procurar em primeiro lugar o Reino de Deus e Sua justiça, que tudo o mais nos será dado por acréscimo».
«A caridade é o pleno cumprimento da lei», nos lembra S. Paulo na segunda Leitura da Missa de hoje (Romanos 13,8-10). Se não podemos ficar indiferentes perante os muitos caminhos errados que os nossos irmãos podem correr, também é certo que toda a nossa ação apostólica deverá ser exercida com muita caridade, persistência, coragem e compreensão. Sempre sem juízos precipitados. Nunca temos direito de julgar seja quem for. Os desvios por outros praticados, também poderiam ser nossos, se não tivéssemos recebido as graças que Deus, na Sua Bondade infinita, nos concedeu. Só Ele nos poderá verdadeiramente julgar.
Foi com muita bondade que Jesus falou com a Samaritana, com Zaqueu, com a mulher adúltera e com tantos outros pecadores. Ele mesmo nos apresenta no Evangelho de hoje os cuidados que devemos ter nesta abordagem: primeiro falar a sós com o irmão, depois, se o primeiro encontro não resultar, levar outro para ajudar no diálogo, e só finalmente o comunicar à Igreja.
Todos estes passos devem ser precedidos de muita oração. À oração nos convida também Jesus na parte final do Evangelho de hoje «se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedido por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mateus 18,15-20). Verdadeiramente a crise do mundo «é crise de santos» com o dizia São Josemaría, isto é, de quem se sacrifique e ore por si pelos outros.
Como é rica e particularmente importante a Palavra do Senhor deste Domingo! Vamos guardá-la e transformá-la em vida. Temos, com certeza, muitos irmãos que esperam, sem saber, a nossa ajuda amiga, para a descoberta do verdadeiro sentido de suas vidas. «Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações».

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Seguir a Jesus


 
«Vós me seduzistes, Senhor, e eu deixei-me seduzir» (Jeremias 20, 7)
A experiência do exílio marcou a vida do povo de Israel. Foi um momento muito doloroso que exigiu professar a sua fé no Deus da Aliança. É neste marco histórico que se situa o Profeta Jeremias, e a 1ª Leitura da Missa de hoje.
A passagem da primeira leitura põe em destaque o clamor do profeta porque Deus o seduziu e o forçou, foi objeto de zombaria de todos e a palavra foi motivo de dor e desprezo. Por isso o profeta quis escapar da missão, mas a Palavra foi mais forte e venceu-o.
A maioria dos profetas bíblicos sofreu experiências similares às de Jeremias. São afastados pelos próprios irmãos e pelas autoridades correspondentes. Muitos deles sofreram a morte ou o desterro. No entanto, a fidelidade a Deus e a seu Povo foi mais forte que sua própria segurança e bem-estar. A Palavra de Deus age no profeta como um fogo abrasador que não o deixa tranquilo e o mantém sempre alerta no cumprimento de sua missão.
«Transformai-vos pela renovação espiritual» (Romanos 12, 2)
A segunda leitura da carta de Paulo aos cristãos de Roma utiliza uma linguagem imperativa e de exortação. Fala-lhes não só como irmão na fé, mas com a autoridade de Apóstolo. Convida-os a fazer de seu corpo uma oferenda permanente a Deus. O verdadeiro culto não é o que se reduz a ritos externos, mas o que procede de uma vida reta e transparente. O corpo, veículo da vida interior, deve ser um canto de louvor e gratidão a Deus. Nisto consiste a conversão para Paulo: numa vida totalmente transformada pelo Espírito de Deus, na mudança de mentalidade, de valores, de horizonte. Só assim se poderão ter critérios de discernimento para buscar, encontrar e realizar a vontade de Deus.
«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mateus 21, 24)
No texto do Evangelho de hoje deparamo-nos com um belo esquema catequético sobre o discipulado como seguimento de Jesus até a cruz. Jesus manifesta a seus discípulos que o caminho da ressurreição está estritamente vinculado a experiência dolorosa da cruz. O núcleo principal é o primeiro anúncio da paixão.
No entanto, os discípulos simbolizados pela pessoa de Pedro, não compreenderam esta realidade. Eles estão convencidos do messianismo glorioso de Jesus que corresponde às expectativas messiânicas do momento. Jesus recusa enfaticamente esta proposta, pois a vontade do Pai não coincide com a expectativa de Pedro e dos discípulos. Por isso Pedro aparece como instrumento de Satanás diante de Jesus para obstruir a sua missão.
Os discípulos são convidados pelo Mestre a continuarem o seu caminho porque ainda não alcançaram a maturidade própria de discípulos. Imediatamente Jesus lembra que o caminho do seguimento também compreende a cruz. Não existe verdadeiro discipulado se não se assume o mesmo caminho do Mestre. O anúncio do evangelho traz consigo perseguição e sofrimento. Tomar a cruz significa participar na morte e ressurreição de Jesus. Perder a vida por causa de Jesus habilita o discípulo para alcançá-la em plenitude junto de Deus.
Desejaríamos viver um cristianismo cômodo, sem sobressaltos, sem conflitos. Mas Jesus é claro em seu convite: é preciso tomar sua cruz, arriscar a vida, perder os privilégios e seguranças oferecidos pela sociedade se quisermos ser fiéis ao Evangelho.
Como vivemos na nossa família e na comunidade cristã a dimensão profética do nosso batismo? Estamos dispostos a correr os riscos exigidos pelo seguimento de Jesus? Ainda hoje conhecemos pessoas que viveram a experiência do martírio pelo Evangelho. Ainda estamos no tempo de martírios de sangue. Que o digam os milhares e milhares de cristãos assassinados ou obrigados a deixar suas casas, suas terras e seus bens, no Iraque e na Síria, e em outros lugares do mundo.
Que a Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, faça de cada um de nós verdadeiros missionários e nos ajude a perceber que "é pela perseverança que alcançaremos a salvação" (cf. Lucas 21,19).

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Jesus Cristo serve-nos na Igreja.

 
Que pensam os homens acerca de Jesus «Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do homem?” (Mateus 16,13-20).
Que dizem as pessoas com quem vivemos todos os dias sobre Jesus Cristo?
Muitos o desconhecem e prescindem dele, embora não se esqueçam de marcar com o sinal cristão os momentos mais importantes da vida: nascimento, casamento e morte.
Muitos dos que seguem a Jesus, são tentados a desanimar. Perante a crise da família, com a infidelidade, o divórcio, o casamento (!) de homossexuais, contracepção e aborto, encaram Jesus e a Sua doutrina como um fracasso e algo que está fora de moda.
E para mim? Que influência real tem Jesus Cristo quando trabalho, vivo em família ou passeio? Não haverá o perigo de o cristianismo ficar reduzido a algumas práticas rotineiras?
Pensam de modo muito diferente os que vivem nos países onde o cristianismo é perseguido, como por exemplo na China. Quantos irmãos nossos, nestes últimos dias, estão sendo mortos por causa da fé cristã, na Síria e no Iraque. Famílias inteiras são obrigadas a deixar suas casas, suas terras, tão somente porque são cristãos.
«Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”.»
Jesus Cristo é o único Redentor do mundo. Ou somos salvos por Ele, pela fidelidade à Sua doutrina e aos Mandamentos, ou perdemo-nos eternamente. Não há salvação fora d’Ele. De que nos adianta ter um médico excepcional, se não fazemos caso dos seus conselhos e receitas?
É o nosso melhor Amigo, porque deu a vida para nos salvar e está sempre disponível para nos ajudar a qualquer momento. Basta que mostremos vontade de receber a Sua ajuda.
Oferece-Se a cada um de nós como alimento, especialmente nos Sacramentos da reconciliação e da Eucaristia. Precisamos de nos confessar bem e de não profanar a Eucaristia, mas comungar bem.
«Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela», diz Jesus a Pedro.
Jesus Cristo atua no mundo. Mas a Sua ação passa pela nossa generosidade. Ele é a Cabeça da Igreja. Mas numa pessoa não pode ser só a cabeça a trabalhar. Cada um dos membros deve fazer aquilo para que foi formado.
A Igreja é Cristo que atuar nos dias de hoje, ajudando as pessoas. Somos o coração de Cristo, os Seus pés e mãos, os lábios e os olhos.
Tem a governá-la em nome de Cristo o Santo Padre, Seu Vigário na terra. Por mais dificuldades que a Igreja tenha, está-lhe prometido por Jesus que não sucumbirá aos perigos e ciladas.
Esta verdade torna-se mais visível na santa Missa que celebramos.
Há uma só fé, um só batismo e um só Senhor que guarda para nós uma só recompensa eterna.
Ele serve-nos a Palavra de Deus e o Seu Corpo e Sangue, para que possamos viver em plenitude. Cristo torna-se visível pelo sacerdócio ministerial.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Bendita és Tu entre todas as mulheres...

 
 Maria é a mais bela das criaturas de Deus. O Senhor escolheu-A para Sua mãe. No Seu seio puríssimo viveu como num sacrário durante nove meses. O Seu Corpo, agora presente na Eucaristia, é o mesmo que dela nasceu. É o mesmo que ressuscitou, vencendo a morte e subindo ao Céu.
O Senhor quis glorificar aquela que não tinha sido manchada pelo pecado, causador da morte e da corrupção, levando-a em corpo e alma para o Céu. Hoje glorificamos a Mãe de Deus e glorificamos a vitória do Seu Filho sobre a morte e o pecado.
É para nós ocasião de aprofundarmos a nossa fé nestas verdades que a Igreja, guiada pelos ensinamentos de Deus, proclama desde os primeiros séculos.
É para nós também ocasião de avivarmos a nossa esperança. A ressurreição de Jesus e a assunção da Virgem ao Céu são como que as primícias da sorte maravilhosa que nos espera. Também nós estaremos com Ela no Céu e também o nosso corpo será restituído à vida e glorificado um dia.
Enchamo-nos de alegria ao celebrar esta festa tão bonita e tão antiga de Nossa Senhora. A Igreja celebra-a pelo menos desde o século VI. A maior parte das catedrais da Idade Média foram dedicadas à Assunção de Maria. Sinal da fé e do amor do povo cristão.
Pio XII, antes de proclamar como dogma esta verdade, comprovou a fé de toda a Igreja, consultando os bispos de todo o mundo. As cartas recebidas foram quase unânimes na manifestação da crença do povo de Deus nesta verdade que o papa proclamou em 1 de Novembro de 1950: ”Pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos bem aventurados Apóstolos Pedro e Paulo e também pela nossa proclamamos, declaramos e definimos ter sido divinamente revelado o dogma de que Imaculada sempre Virgem Maria Mãe de Deus, terminado o curso da Sua vida na terra, foi elevada em corpo e alma à glória do Céu” (Const. Apostólica Munificentissimus Deus, em AAS 43 (1951) 638).
No mesmo documento Pio XII lembra os textos dos Santos Padres que testemunham a Tradição da Igreja, que afirmam esta verdade revelada, terminando assim: “Desde o século II a Virgem Maria é apresentada pelos Santos Padres como a nova Eva, estreitamente unida ao novo Adão, embora a Ele sujeita. Mãe e Filho aparecem intimamente unidos na luta contra o inimigo infernal, luta essa que, como foi preanunciado no Proto-evangelho, havia de terminar na vitória completa sobre o pecado e a morte“ (Ibid)
O Evangelho (Lucas 1,39-56) apresenta-nos a cena tão bela da visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel. A mãe do precursor, cheia do Espírito Santo dirige a Maria os mais belos elogios. Guiada também pelo Espírito de Deus, a Santa Igreja continuou ao longo dos séculos a louvar a Mãe do Senhor.
Ao ouvir aqueles elogios Maria não nega que sejam verdade. Diz mesmo que todas as gerações A chamarão bem aventurada. Mas encaminha para Deus todos os louvores: «A Minha alma glorifica o Senhor e o Meu espírito se alegra em Deus Meu Salvador…O Todo poderoso fez em Mim maravilhas: santo é o Seu nome»
 
A Virgem é para nós modelo da verdadeira humildade. Esta não consiste em negar as coisas boas que recebemos, mas em encaminhar para Deus, que no-las deu, os louvores recebidos. Escolhida para Mãe de Deus, foi pôr-se ao serviço da prima durante três meses, como simples criada, para a ajudar.
 
Contemplemos uma vez e outra o exemplo da nossa Mãe. Está tão perto de Deus. É a criatura mais perfeita, revestida da dignidade maior concedida a uma criatura. Ao mesmo tempo é a mais humilde, mais perto de cada um de nós: pelo Seu trabalho, que foi igual ao de tantas mulheres, pela Sua simplicidade, pelo Seu amor a cada homem, que o Senhor Lhe entregou como Seu filho.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O Deus do silêncio


 

 Deus chama-nos a estar com Ele. «O Senhor dirigiu-lhe a palavra, dizendo: “Sai e permanece no monte à espera do Senhor”.» (1 Livro dos Reis, 19,9;11-13)
Vivemos numa civilização do ruído, onde é difícil ouvir o que o Senhor nos quer dizer. Ao chamar Elias ao Monte, parece sugerir-nos que Ele precisa de silêncio para nos falar.

Temos necessidade, não apenas de silêncio físico – de ausência de ruídos externos – mas também de silêncio interior. Se não pusermos de parte as preocupações em que vivemos mergulhados, não conseguimos rezar. Podemos pronunciar palavras mecanicamente, mas não atendemos ao que dizemos.
É preciso fugir desta agitação constante e inútil de notícias banais, e deixar as preocupações sem importância fora da porta da nossa alma. Queremos, de fato, encontrar-nos com Deus?

«Diante d’Ele, uma forte rajada de vento fendia as montanhas e quebrava os rochedos; mas o Senhor não estava no ventoDeus não Se manifesta na forte rajada de vento. Pretendem dar-nos uma imagem de um Deus que nos assusta, nos mete medo.
Até alguns pais, com a melhor das intenções, falam repetidas vezes aos filhos de um Deus que só castiga...

A imagem de Deus é totalmente oposta a esta. Deus é o melhor dos pais, e ama-nos com loucura. Persegue-nos com o Seu Amor durante a vida inteira, dá-nos muitas oportunidades de Salvação e aceita a nossa liberdade quando Lhe fechamos a porta na última oportunidade da vida.
Deus não está no tremor de terra. Ele simboliza a insegurança, como se Deus fosse um estranho para nós e nós para Ele.

É verdade que não dispomos da nossa vida, no sentido de que não podemos prolongar a vida até quando quisermos. Encontramo-nos expostos a doenças e perigos.

Mas nada acontece sem que Ele o permita, quando o faz, é porque daí pode advir um bem para nós. Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus, como nos ensina São Paulo.

Deus não se manifesta no fogo. Temos de começar o nosso encontro com Deus fazendo esforço por apagar o fogo das paixões: da gula, da sensualidade, da inveja, do apego às coisas. Se não tivermos cuidado com as conversas, programas de TV, internet, perderemos toda a disposição para rezar.

O Senhor convida-nos também a queimar tudo o que é inútil, que nos estorva, para cuidarmos da vida eterna.

«Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa. Quando o ouviu, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e ficou à entrada da gruta
Deus manifesta-se no silêncio, figurado nesta ligeira brisa. O ar fresco enche-nos os pulmões, purifica o ar, e causa-nos boa disposição.
A verdadeira imagem que havemos de ter acerca de Deus é a de um Pai que gosta de conversar conosco na intimidade.

Quando chega o momento de estar com Ele, o sentimento mais natural é o da alegria e felicidade. Perguntamos então a nós próprios: “de que Lhe vou falar hoje? Que problemas gostaria de Lhe apresentar?” Sairemos deste encontro com Ele rejuvenescidos, felizes porque sentimos a fortaleza que nos vem da Sua amizade.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A fome e a sede


 
 O profeta Isaías, na primeira leitura deste domingo (Isaías 55,1-3), prometia aos israelitas que abandonassem o exílio da Babilónia, onde se encontravam, a obtenção sem custo, do alimento indispensável para as suas vidas, em vez de consumirem o que possuíam naquilo que não satisfazia. Porém, os regressados da terra de cativeiro nada disso descobriram. Pelo contrário, foram mal recebidos e suportaram imensas dificuldades na sua própria terra.
O mesmo acontece, ainda hoje. Certamente, o homem precisa de pão, precisa do alimento do corpo, mas no íntimo de si mesmo precisa sobretudo da Palavra, do Amor, do próprio Deus. Quem lhe der isto dá-lhe «vida em abundância». E deste modo liberta também as forças pelas quais ele pode sensatamente modelar a terra, pode encontrar para si e para os outros os bens, que podemos possuir apenas mutuamente, pois estudos efetuados demonstram que o problema da fome mundial está relacionado com a distribuição de alimentos e concentração de lucros e não com a escassez de produtos.
Infelizmente nem sempre o homem procura a resposta às suas inquietações onde realmente a pode encontrar. Muitas vezes ele gasta dinheiro naquilo que não é pão e naquilo que não satisfaz.
Mas, se a Palavra de Deus é atual, qual é a terra de cativeiro (ás vezes doce e deliciosa) que hoje somos solicitados a repudiar? Do que sentimos fome? Com que guloseimas enchemos a nossa miséria e abafamos a nossa sede?
O que falta para que neste mundo em que vivemos se possa realizar a profecia anunciada, uma vez que o Messias já veio há mais de 2000 anos? Quando e como se realizará, então, a profecia?
A resposta a esta pergunta podem encontrá-la no Evangelho de hoje (Mateus 14,13-21).
Jesus, o novo Moisés que todos esperavam, realiza a profecia. É-nos mostrado com uma imensa multidão que o seguia em direção ao deserto.
A vida no deserto servira para ensinar Israel pois, desprovido de qualquer segurança humana, aprendera a acreditar somente em Deus.
Foi por esta razão que Jesus os conduziu ao deserto. A multidão sentiu fome e os discípulos de Jesus o aconselharam a afastar a multidão para que pudesse arranjar alimento. Como procedeu Jesus?
Sentiu compaixão perante as necessidades dos irmãos.
Sentir compaixão é a primeira circunstância para nos sentirmos motivados para a ação.
Depois, o Evangelho narra o que Ele começou a fazer: curou os doentes e, à tarde, satisfez a fome à multidão. Não se limitou a enunciar linguagem espiritual ou a fomentar orações; esforçou-Se de maneira concreta para resolver todos os reais problemas do homem. Não lançou sobre os outros a resolução do problema da fome: as pessoas que tinham fome não seriam expulsas, «os próprios discípulos deviam dar-lhes de comer».
Então, se queremos seguir Jesus, o que fazemos em concreto, individual ou coletivamente, para enfrentar os problemas que angustiam tantas pessoas?
Jesus não resolveu sozinho o problema da fome das multidões. Ele serviu-se daquilo que as pessoas colocaram à sua disposição: cinco pães e dois peixes, isto é, sete fatores materiais. Em linguagem bíblica este número simbólico representa a universalidade. Daí que a mensagem de Jesus se torne clara: a comunidade deve criar em comum tudo o que possui para se poder realizar o «milagre» de proporcionar alimento para todos. Ora, a fome não é o resultado de uma produção agrícola insuficiente, mas sim um grave problema socioeconómico. Não reside na falta de tecnologia apropriada, mas na distribuição de rendimento e de alimento entre a população mundial.
Só quando todos os homens, onde nos incluímos, se dispuserem a pôr em comum tudo o que têm – aptidões, proveitos, tempo – é que se poderão resolver as gigantescas dificuldades dos irmãos, mais próximos ou mais afastados de nós.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Um tesouro no céu


 

Corremos o risco de andar pela vida atrás de bolas de sabão. No evangelho deste XVII Domingo Comum A, Jesus fala do tesouro que todos podemos encontrar de verdade. Temos de vender tudo, pôr todas as coisas em segundo lugar por causa desse tesouro, que é a único pelo qual vale a pena viver e morrer.
Salomão pediu a Deus a sabedoria para governar bem o seu povo -ouvíamos na primeira leitura, tirada do livro 1º dos Reis, 3, 5; 7-12. E o Senhor fica contente com o seu pedido e dá não só a sabedoria mas também o que não Lhe pedira: a riqueza e o poder e uma vida longa.
Hoje o orgulho cegou muitos homens. Não têm a sabedoria verdadeira, que vem de Deus e fazem propaganda dos maiores disparates. Orgulham-se dos seus estudos e não passam de loucos. Porque a verdadeira sabedoria não se aprende nas escolas, mas no colo da mãe, nos bancos da catequese e na oração.
A verdadeira sabedoria anda ligada com a fé. Temos de pedi-la e cultivá-la na oração. Temos de alimentá-la com a escuta da Palavra de Deus na Santa Missa, no estudo pessoal e na leitura piedosa e nos meios de formação espiritual que Deus põe ao nosso alcance.
Temos de viver a nossa fé cumprindo fielmente os mandamentos na vida de cada dia.
Vamos sempre encontrar na Lei de Deus a nossa alegria. «A vossa lei faz as minhas delicias... Eu amo os vossos mandamentos mais que o ouro, o ouro mais fino» – dizia o salmista.
Aprofundemos a nossa fé, deixemo-nos guiar por ela sem condições e encontraremos a alegria verdadeira já neste mundo e saberemos comunicá-lo aos outros, porque este tesouro não é só para nós. E aumenta na medida em que se reparte.
São Paulo, na segunda Leitura deste domingo (Romanos, 8,28-30) dizia-nos que «Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam» (2ª leit.). Ser santo é ser feliz. Mesmo no meio das coisas desagradáveis da vida, que Deus permite para nosso bem. Tudo é para o bem se amamos a Deus. A única desgraça é o pecado, sobretudo o pecado mortal, porque nos afasta de Deus, fonte da alegria. Omnia in bonum – tudo é para bem – gostava de rezar como jaculatória São Josemaria, repetindo as palavras de São Paulo.
Deus escolheu-nos, chamou-nos à vida. E tem um projeto maravilhoso para cada um de nós. «Predestinou-nos para sermos à imagem do Seu Filho». Quer que sejamos santos e dá-nos as graças para isso, por meio de Jesus na Sua Igreja.
Ninguém pode desculpar-se que não pode ser santo. Essa é a meta de cada um dos cristãos, como lembrava São João Paulo II no começo do 3º milénio ao lançar um programa para toda a Igreja: «Colocar a programação pastoral sob o signo da santidade é uma opção carregada de consequências. Significa exprimir a convicção de que, se o Batismo é um verdadeiro ingresso na santidade de Deus, através da inserção em Cristo e da habitação do seu Espírito, seria um contrassenso contentar-se com uma vida medíocre, pautada por uma ética minimalista e uma religiosidade superficial... Como explicou o Concílio, este ideal de perfeição não deve ser objeto de equívoco vendo nele um caminho extraordinário, a ser percorrido apenas por algum ‘gênio’ da santidade. Os caminhos da santidade são variados e apropriados à vocação de cada um. Agradeço ao Senhor por me ter concedido, nestes anos, beatificar e canonizar muitos cristãos, entre os quais numerosos leigos que se santificaram nas condições ordinárias da vida. É hora de propor de novo a todos, com convicção, esta ‘medida alta’ da vida cristã ordinária: toda a vida da comunidade eclesial e das famílias cristãs deve apontar nesta direção. Mas é claro também que os percursos da santidade são pessoais e exigem uma verdadeira e própria pedagogia da santidade, capaz de se adaptar ao ritmo dos indivíduos; deverá integrar as riquezas da proposta lançada a todos com as formas tradicionais de ajuda pessoal e de grupo e as formas mais recentes oferecidas pelas associações e movimentos reconhecidos pela Igreja».
Ser santo é parecer-se com Jesus Cristo, sermos conformes à Sua imagem. E isso realiza-se pela graça de Deus, que recebemos no batismo e nos identifica com Ele. À medida que vamos crescendo na graça vamo-nos parecendo cada vez mais com Jesus.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

A comunhão e a corresponsabilidade dos presbíteros na Igreja


A comunhão e a corresponsabilidade dos presbíteros na Igreja

 

Um dos elementos focalizados pelo Concílio Vaticano II foi, a partir do capítulo I da Lumen Gentium, em que se trata do mistério da Igreja, a acentuação de que ela é um povo reunido a partir da unidade, da comunhão do Pai e do Filho e do Espírito Santo. 
A fonte mais profunda de origem da Igreja encontra-se na Santíssima Trindade. A Igreja é, no mundo, o reflexo e a vivência do ministério trinitário, é a comunhão existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que deve caracterizar toda a comunhão eclesial. O Pai doa-se inteiramente ao Filho, de sorte que o Pai esteja todo no Filho e o Filho todo no Pai; o Pai e o Filho fazem proceder de Si o Espírito Santo, de sorte que o Pai e o Filho estejam totalmente no Espírito Santo e o Espírito Santo, todo no Pai e no Filho. Esse estar “todo” de uma pessoa divina na outra, que acontece pela comunicação do Pai para o Filho, denomina-se geração. É a geração eterna do Verbo! A comunicação do Pai e do Filho no Espírito Santo recebeu, em 1438, no Concílio de Florença, o nome de expiração.

Todo esse processo indica a comunhão mais íntima que se possa imaginar das três pessoas divinas. Essa comunhão é o modelo de qualquer comunhão. 
A comunhão é mais do que democracia, é fraternidade. Comunhão é diálogo, corresponsabilidade, participação, solidariedade. Não é imposição do parecer da maioria à minoria, mas é a simbiose harmônica de todos os pareceres.

São todos valores que se encontram no mistério trinitário e devem ser refletidos no mundo criado.
Comunhão implica sempre uma dupla dimensão: vertical (comunhão com Deus) e horizontal (comunhão com a humanidade). Essa comunhão com o Pai por Cristo no Espírito Santo se exprime visivelmente no perseverar unânime na doutrina dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações, e na obediência aos legítimos pastores (uma só fé, um só batismo, um só Senhor).

 É assim que Cristo exercita na história a Sua função profética, sacerdotal e régia para a salvação da humanidade.
A raiz e o centro da comunhão eclesial é a Sagrada Eucaristia. Fala-se em comungar. Entende-se, normalmente, a comunhão eucarística. Por isso, não pode comungar Jesus na comunhão quem não comunga com o Pai no cumprimento da sua vontade. Quem não vive em ordem com o plano salvador divino, não pode participar da salvação encerrada na Santíssima Eucaristia. A Eucaristia edifica o Corpo de Cristo, que é a Igreja. É o que diz o apóstolo Paulo: “Já que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, visto que todos participamos desse único pão”.

  Aquilo que vedes sobre o altar de Deus [...] é o pão e o cálice: isto vos asseguram os vossos próprios olhos. Ao invés, segundo a fé que se deve formar em vós, o pão é o corpo de Cristo, o cálice é o sangue de Cristo. [...] Se quereis compreender [o mistério] do corpo de Cristo, escutai o apóstolo que disse aos fiéis: ‘vós sois o corpo de Cristo e seus membros’ [1Cor 12,27]. Se vós portanto sois o corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor está posto o mistério que sois vós: recebei o mistério que sois vós. Àquilo que sois, respondei: ‘Amém’, e respondendo o subscreveis. Diz-se a ti de fato: ‘O Corpo de Cristo’, e tu respondes: ‘Amém’. Sê membro do corpo de Cristo, a fim de que seja autêntico o teu Amém (Agostinho, 2003).”

 Outra força unificadora da Igreja é o bispo, alguém investido da plenitude do sacramento da Ordem. É a partir dessa plenitude que se tece visivelmente a comunhão eclesial. Essa plenitude do bispo supõe a comunhão com os demais bispos, revestidos também da plenitude sacramental, e, consequentemente, com o bispo de Roma, o Romano Pontífice, o santo padre. É a grande comunhão católica, dentro de cuja comunhão todos os cristãos do mundo inteiro se devem encontrar. A plenitude do bispo se exerce, pois, na plenitude da comunhão dos demais bispos e do Romano Pontífice. Vê-se também, por isso, que a comunhão eclesial é a espinha dorsal e todo o ser e agir da Igreja. Assim, pode-se também afirmar que, onde houver um bispo em comunhão, haverá a Igreja-Comunhão.
Esse aspecto da comunhão está na base da colegialidade episcopal. É a grande comunhão dos bispos entre si e com o papa e do papa com os bispos.

O destino de ser colaborador do episcopado é compartilhado por todos os presbíteros e os liga afetiva e ministerialmente numa profunda visão do mistério da Igreja, que é simultaneamente universal e particular. A pertença e a dedicação do presbítero a uma Igreja particular constituem elementos que qualificam para a edificação da Igreja “na pessoa” de Cristo Cabeça e Pastor e não limitam a sua missão, que é universal.
 O sentido de “pertença eclesial” surge do fato de que o viver do presbítero pertence à Igreja e esta a Cristo (a Igreja não pertence ao presbítero, não é propriedade sua). Por isso, no seu modo de pensar e operar – na qualidade de “homem de Igreja” – o presbítero deve viver em estreita comunhão com o Romano Pontífice, princípio e fundamento perpétuo e visível da unidade da fé e da comunhão (Concílio Vaticano II, 2007a, n. 18), com o seu bispo, em sintonia com os outros presbíteros e com os fiéis leigos (João Paulo II, 1991, p. 813). É importante sublinhar que a “comunhão eclesial” não se realiza plenamente no manter as relações somente com a Igreja particular, exige também a relação com a Igreja universal.

O presbítero não pode agir ignorando que a Igreja, edificada por Cristo, qual dom oferecido à humanidade, é universal. A Igreja particular, fora dela, não tem razão de ser, uma vez que esta é Igreja na medida em que nela torna-se presente e operante “a única Igreja de Cristo”.
 Desse modo, o sentido de pertença eclesial implica não somente uma relação com a Igreja universal, mas exige também a manutenção da relação com a Igreja particular, onde os presbíteros, de modo especial, formam um único presbitério, cujo serviço é executado sob a tutela do próprio bispo.

 

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