terça-feira, 30 de junho de 2015

Vocação e Missão do Profeta.
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 12:52 0 comentários


 


A primeira Leitura deste domingo (Ezequiel 2,2-5) nos apresenta a missão do profeta, quase sempre exigente, trabalhosa e difícil.
Apesar da sua fragilidade, Deus o escolheu e o enviou. A mensagem que irá transmitir não é sua. Por isso se lhe pede escuta, docilidade e fidelidade no anúncio, no ensino e no testemunho.
Perante tal missão e na consciência da sua pobreza e fragilidade ele deve munir-se de profunda confiança em Deus; ser pessoa de oração e de escuta da Palavra de Deus; deve possuir consciência de solidariedade e se preocupar com o destino dos outros. E na fidelidade à verdade da mensagem, estar disponível para se fazer doação total, dando se for necessário, a própria vida.
A mensagem que Deus lhe pede é de convite à conversão, purificador da Aliança, anunciador da santidade e beleza de Deus, trabalhador incansável da dignidade humana, libertador dos esquemas de morte, dinâmico colaborador no apontar para Jesus Cristo.

Quase sempre, na boa tradição profética, o esperará o desprezo, a rejeição, a eliminação, a perseguição e, às vezes, a própria morte.
Jesus Cristo, Profeta por excelência apresenta-se com uma beleza magnífica. O quadro do Evangelho de hoje (Marcos 6,1-6) apresenta-nos a sua dignidade humana, a serenidade e novidade das suas atitudes e palavras, o cumprimento da mais genuína tradição profética.
 
O filho do carpinteiro e o salientar do «filho de Maria» em que o evangelista apela à sua concepção virginal e sua divindade, realçam quanto o nosso Deus amou a nossa humanidade e se fez igual a nós, o «filho do carpinteiro» a traduzir que não são as roupas ou as profissões que traduzem a grandeza da pessoa, mas a sua dignidade e o serviço. Neste gesto de Deus se revoluciona radicalmente a sociedade.
Deus fala-nos por seu Filho. E quantas vezes o Pai dá testemunho d’Ele e nos pede para O escutarmos! E também o Espírito Santo dá testemunho ao conduzir-nos ao ato mais belo da nossa fé: crer que Jesus Cristo é o verdadeiro Filho de Deus e Filho de Maria. E Paulo, na segunda Leitura (2 Coríntios 12,7-10), nos dá um testemunho belo de profunda confiança e entrega.

Em Cristo mensageiro e mensagem se identificam. Ele comunica por palavras e por gestos a novidade do amor de Deus.

A Palavra de Deus chega hoje até nós através da palavra humana, de pessoas que apresentam garantias e são testemunhas credíveis.
 
Pelo batismo, em nós nasceu a vocação de profeta. Ser pessoa em quem Deus confia os seus mistérios de amor: anunciando e denunciando; construindo e destruindo.

 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Solenidade de São Pedro e de São Paulo
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 18:18 0 comentários



 

 “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...” Jesus referia-se à fé que Pedro n’Ele anunciara. Esta fé institui o fundamento sólido da Igreja, torna-a firme e capaz de vencer as forças adversas. Todos aqueles que, como Pedro, adotam a fé em Jesus Cristo Filho do Deus vivo, passam a fazer parte deste edifício extraordinariamente sólido que nunca cairá. Nada nem ninguém poderá impedir a Igreja de realizar a sua missão de salvação.
Pedro que acaba de exteriorizar a sua fé em Cristo caracteriza os apóstolos e todos os cristãos que praticam a mesma fé.
Este Apóstolo aparece sempre em primeiro lugar e é aquele que deve confirmar a fé dos outros. Ele é o incumbido de manter a unidade de todos os cristãos nessa mesma fé. Por isso, a Igreja confia no bispo de Roma, sucessor de Pedro, como responsável de preservar a fé em Cristo recomendada por esse apóstolo, a fim de executar tal missão no decurso de todos os tempos.

Temos a obrigação de rejeitar tudo aquilo que não é evangélico no nosso modo de perceber o ministério do Papa e a sua autoridade na Igreja. Devemos ajustar-nos, sobretudo, àquilo que Jesus repetiu tantas vezes e com tanta evidência: «Aquele que for o maior, proceda como se fosse o menor, e o que governar proceda como o que serve os outros» (Lucas 22, 26).
É esta também a visão de Paulo. Poucos meses antes de morrer, fechado numa prisão de Roma, escreve a Timóteo, seu companheiro de missão, dando-se conta que o seu fim está próximo, faz um balanço de toda a sua vida. Está convencido que, no anúncio do Evangelho, realizou a sua imposição principal como os atletas que participam nas competições desportivas no estádio: consumiu todas as suas forças pela causa justa do anúncio do Evangelho, quando afirma: «Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé».

Está convicto de que Deus lhe dará também a ele, no dia em que for recebido na morada eterna, a coroa da vitória que espera todos aqueles «que aguardaram com amor a sua vinda», isto é, a todos aqueles que, como ele, tenham lutado pela justiça.
Pedro e Paulo apontaram-nos com que abnegação à Igreja, com que qualidade de amor, com que desprendimento e com que coragem deve ser cumprido o ministério do anúncio do Evangelho. São o modelo de lealdade à vocação cristã quando somos confrontados com situações nada fáceis: perante a amargura, o isolamento, o desentendimento, ou a marginalização a que nos possam algemar.

Como nos refere a primeira leitura, quem sofre por causa de Cristo deve demonstrar, como Pedro e Paulo, o seu amor franco e dedicado à Igreja, mesmo quando todos lhe são desfavoráveis. Do seu lado terão sempre o «anjo do Senhor» para ampará-los e libertar, como fez com Pedro no momento em que ele mais precisava.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

A nossa experiência quotidiana
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 02:39 0 comentários




 
Perante a realidade do mundo de hoje, somos muitas vezes tentados, como Jó (1ª Leitura deste Domingo: Jó 38,1.8-11), a queixar-nos da ausência de Deus nas nossas vidas. Vemos que os opressores, os astutos e os de mau caráter predominam, cometendo injustiças. Por outro lado, sucedem-se desgraças, calamidades, doenças que atingem pessoas inocentes que sofrem. E interrogamo-nos: onde está Deus nestas ocasiões? Não terá esquecido dos pobres e indefesos? Quereríamos ter à nossa disposição um Deus que interviesse para transformar a relação de forças que existe no mundo, que se aliasse com as vítimas das injustiças para vencer e abater quem as comete.
Deus, porém, pede-nos, como fez a Jó, uma confiança absoluta no seu amor, para acreditarmos que Ele continua a guiar os acontecimentos da história e da vida, como Pai amoroso de todos os homens.

Assim o vivenciaram os discípulos que eram transportados naquela barca e que sentiram a força enorme que procedia de Jesus para serenar o vento e o mar, como nos relata o Evangelho (Marcos 4,35-41).
Os discípulos que seguiam na barca, símbolo da Igreja, tiveram a sensação de que o Senhor não os ajudava e que apenas podiam contar com as suas próprias capacidades. Todavia, Cristo estava com eles, embora aparentemente a dormir sem se incomodar com a tempestade.

Também nós muitas vezes temos a sensação de sermos afetados pelos acontecimentos e pelas contrariedades e que Jesus está adormecido perante os nossos problemas, difamações ou incompreensões. Sentimos que Ele está longe ou ausente. Mas tal não acontece. Ele é um Deus que deixa fazer, permitindo que a cobiça, as contendas, a falsidade e as arbitrariedades se instalem e que as ocorrências sigam o seu trajeto. Depois, quando o mal parece inevitável, Deus mostra que quem vence é sempre Ele.
Os discípulos que seguiam na barca cometeram o erro de apenas se terem lembrado do Mestre quando se viram numa condição desesperada. Acontece o mesmo conosco quando somente perante qualquer adversidade que nos aconteça nós recorremos a Deus para que nos salve, para que interfira milagrosamente, a fim de mudar o curso da história. Será autêntica esta nossa fé?

Quem tem fé em Cristo vive em constante relacionamento com Ele, não O invoca apenas quando as coisas vão mal. Os discípulos foram admoestados como homens de pouca fé, porque apenas ficaram cheios de admiração quando o mar e o vento se acalmaram em obediência a Jesus.
O cristão tem de saber viver esta fé otimista em Jesus.

segunda-feira, 15 de junho de 2015


A ação silenciosa do coração. 

(fratresinunum.com) 

“É absolutamente apropriado que, durante o ato penitencial, o canto do Glória, as orações e Oração Eucarística, todos – o sacerdote e os fiéis –  voltem-se juntos à direção “ad orientem”, expressando a sua vontade de participar da obra de adoração e redenção realizada por Cristo”.
Por Cardeal Robert Sarah – L’Osservatore Romano, 12 de junho de 2015 | Tradução: Vitor Picanço – Cinquenta anos após a sua promulgação pelo Papa Paulo VI, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II será lida? “Sacrosanctum Concilium” não é, de fato, um simples “livro de receitas” da reforma, mas uma verdadeira “Carta Magna” de toda a ação litúrgica.
Cardeal Sarah
Cardeal Sarah
Com ela, o concílio ecumênico nos dá uma lição magisterial. Na verdade, longe de estar contente com uma abordagem multidisciplinar e exterior, o concílio quer fazer-nos refletir sobre o que a liturgia é em sua essência. A prática da Igreja sempre vem do que Ela recebe e contempla no Apocalipse. O cuidado pastoral não pode ser desligado da doutrina.
Na Igreja, “a ação é ordenada à contemplação” (cfr. N. 2). A Constituição do concílio convida-nos a redescobrir a origem trinitária da ação litúrgica. Com efeito, o concílio estabelece a continuidade entre a missão do Cristo Redentor e a missão litúrgica da Igreja. “Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos” para que “mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica” eles realizem “a obra da salvação”. (N.6).
Operar a liturgia é, portanto, nada mais do que a operação da obra de Cristo. A liturgia em sua essência é “actio Christi”. [É] a obra de Cristo, o Senhor, da “redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus.” (N.5) É Ele quem é o eminente Sacerdote, o verdadeiro sujeito, o verdadeiro protagonista na liturgia (n.7 ). Se este princípio essencial não é aceito, existe o risco de transformar a liturgia em uma obra humana, uma auto-celebração da comunidade.
Em contrapartida, o verdadeiro trabalho da Igreja consiste em inserir-se na ação de Cristo, em unir-se a essa obra que Ele recebeu como uma missão do Pai. Assim, “nos deu a plenitude do culto divino”, pois “sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação” (n.5). A Igreja, Corpo de Cristo, deve, portanto, tornar-se por sua vez um instrumento nas mãos do Verbo.
Este é o sentido último do conceito-chave da Constituição Conciliar: “participatio actuosa”. Tal participação da Igreja consiste em tornar-se o instrumento de Cristo – O Sacerdote, com o objetivo de partilhar de Sua missão trinitária. A Igreja participa ativamente da ação litúrgica de Cristo, na medida em que Ela é seu instrumento. Neste sentido, falar de “uma comunidade celebrante” “não é desprovido de ambiguidade e exige prudência. (Instrução “Redemptoris sacramentum”, n. 42). A “Participatio actuosa” não deve, então, ser concebida como a necessidade de fazer alguma coisa. Sobre este ponto, a doutrina do concílio tem sido frequentemente deformada. Antes, trata-se de permitir que Cristo nos tome e nos ligue ao Seu Sacrifício.
A “Participatio” litúrgica deve, portanto, ser concebida como uma graça de Cristo, que “associa sempre a si a Igreja.” (SC n. 7) Ele é quem tem a iniciativa e a primazia. A Igreja “invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai” (n.7).
O sacerdote deve tornar-se, assim, este instrumento que permite que Cristo transpareça. Assim como nosso Papa Francisco nos lembrou, recentemente, que o celebrante não é apresentador de um espetáculo; ele não deve visar a popularidade, colocando-se diante dos fiéis como seu principal interlocutor. Entrar no espírito do concílio significa, pelo contrário, fazer-se desaparecer – abandonando o centro do palco.
Ao contrário do que às vezes tem sido sustentado, e em conformidade com a Constituição conciliar, é absolutamente apropriado que, durante o ato penitencial, o canto do Glória, as orações e Oração Eucarística, todos – o sacerdote e os fiéis — voltem-se juntos à direção “ad orientem”, expressando a sua vontade de participar da obra de adoração e redenção realizada por Cristo. Esta maneira de agir poderia ser convenientemente realizada nas catedrais onde a vida litúrgica deve ser exemplar (n. 4).
Para ser muito claro, há outras partes da Missa, onde o padre, agindo “in persona Christi Capitis” entra em diálogo com a congregação. Mas este cara-a-cara não tem outro objetivo senão levá-los a um tête-à-tête com Deus, que, através da graça do Espírito Santo, irá torná-lo ‘coração-à-coração”. O concílio oferece outros meios para favorecer a participação: “as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes corporais” (n. 30).
Uma leitura excessivamente rápida e superficial deduziu que os fiéis tinham de ser mantidos constantemente ocupados. A mentalidade ocidental contemporânea, moldada pela tecnologia e enfeitiçada pelos meios de comunicação de massa, queria tornar a liturgia uma obra de pedagogia eficaz e proveitosa. Neste espírito, houve a tentativa de fazer dela um espaço de socialização. Os atores litúrgicos, animados por motivos pastorais, tentam, às vezes, fazer dela uma obra didática, através da introdução de elementos seculares e espetaculares. Não vemos, por acaso, um crescimento de testemunhos, performances e palmas? Eles acreditam que a participação é favorecida desta forma, quando, na realidade, a liturgia está a ser reduzida a uma atividade humana.
“O silêncio não é uma virtude, nem o ruído um pecado, é verdade”, diz Thomas Merton, “mas o tumulto contínuo, confusão e barulho na sociedade moderna ou em certas liturgias eucarísticas africanas são uma expressão da atmosfera de seus pecados mais graves e de sua impiedade e desespero. Um mundo de propaganda e intermináveis argumentações, de inventivas, críticas ou mera tagarelice, é um mundo em que a vida não vale a pena viver. A Missa torna-se um barulho confuso, as orações um ruído exterior ou interior“ (Thomas Merton, “The Sign of Jonah” edição francesa, Albin Michel, Paris, 1955 – 322 p.).
Corremos o risco real de não deixar espaço para Deus em nossas celebrações. Corremos o risco da tentação dos hebreus no deserto. Eles tentaram criar um culto de acordo com sua própria estatura e medida, [mas] não nos esqueçamos que acabaram se prostrando diante do ídolo do Bezerro de Ouro.
É hora de começar a ouvir o concílio. A liturgia é “principalmente culto da majestade divina” (n.33). Isto tem valor pedagógico, na medida em que é totalmente ordenada à glorificação de Deus e ao culto divino. A Liturgia verdadeiramente nos coloca na presença da transcendência divina. A verdadeira participação significa renovar em nós mesmos aquela “maravilha” que São João Paulo II tinha em grande consideração (Ecclesia de Eucharistia n. 6). Esta santa admiração, esta alegre reverência, requer o nosso silêncio diante da Majestade Divina. Frequentemente, esquecemos que o santo silêncio é um dos meios indicados pelo concílio para favorecer a participação.
Se a liturgia é a obra de Cristo, é necessário que o celebrante introduza seus próprios comentários? Devemos lembrar que, quando o Missal autoriza uma intervenção, este não deve se transformar em um discurso secular e humano, um comentário mais ou menos sutil em algo de interesse tópico, nem uma saudação mundana para as pessoas presentes, mas uma breve exortação, como introdução ao Mistério (Apresentação Geral do Missal Romano, n.50). Em relação à homilia, é em si um ato litúrgico, que tem as suas próprias regras.
A “Participatio actuosa” na obra de Cristo pressupõe que deixemos o mundo secular, de modo a entrar na “ação sagrada por excelência” (Sacrosanctum concilium, n.7). De fato, “nós reivindicamos, com uma certa arrogância – participar do divino” (Robert Sarah, “Dieu ou rien”, p 178.).
Em tal sentido, é deplorável que o altar, em nossas igrejas, não seja um lugar estritamente reservada para o Culto Divino, que as roupas seculares sejam usadas nele e que o espaço sagrado não seja claramente definido pela arquitetura. Uma vez que, como ensina o concílio, Cristo está presente na sua Palavra, quando esta for proclamada, é igualmente prejudicial que os leitores não usem roupas adequadas, indicando que eles não estão pronunciando palavras humanas, mas do Verbo Divino.
A liturgia é fundamentalmente mística e contemplativa, e, consequentemente, para além da nossa ação humana; ainda, a “participatio” é uma graça de Deus. Portanto, ela pressupõe da nossa parte uma abertura ao mistério celebrado. Assim, a Constituição recomenda plena compreensão dos ritos (n.34) e ao mesmo tempo estabelece que “os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem “(n.54).
Na realidade, a compreensão dos ritos não é um ato de razão, deixada à sua própria capacidade, que deve aceitar tudo, compreender tudo, dominar tudo. A compreensão dos ritos sagrados é a do “sensus fidei”, que exercita a fé viva através de símbolos e que conhece através da “harmonia”, mais do que pelo conceito. Esse entendimento pressupõe que nos aproximamos do Mistério Divino com humildade.
Mas será que vamos ter a coragem de seguir o concílio até este ponto? Tal leitura, iluminada pela fé, é, no entanto, fundamental para a evangelização. Na verdade, “mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações, para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor ” (n.2). Ela [a leitura da SC] deve deixar de ser um lugar de desobediência às prescrições da Igreja.
Mais especificamente, não pode ser uma ocasião para divisão entre os católicos. As leituras dialéticas da “Sacrosanctum Concilium”, ou seja a hermenêutica da ruptura em um sentido ou outro, não é o fruto de um espírito de fé. O concílio não queria romper com as formas litúrgicas herdados da tradição, mas sim queria aprofundá-las. A Constituição estabelece que “as novas formas como que surjam a partir das já existentes.” (N.23).
Neste sentido, é necessário que aqueles que celebram conforme o “usus antiquior” devam fazê-lo sem qualquer espírito de oposição e, portanto, dentro do espírito da “Sacrosanctum Concilium”. Da mesma forma, seria errado considerar a forma extraordinária do Rito Romano como derivando de outra teologia que não da liturgia reformada. Seria também desejável que o ato penitencial e o Ofertório da “antiquior usus” fosse inserido como um apêndice na próxima edição do Missal [de Paulo VI], com o objetivo de ressaltar que as duas reformas litúrgicas iluminam uma à outra, na continuidade e sem oposição .
Se vivemos com esse espírito, então a liturgia vai deixar de ser um lugar de rivalidade e críticas, em última análise, para nos permitir participar ativamente em na liturgia “celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo”(n.8).

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A semente que cresce
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 07:48 0 comentários


 
 

Quem acredita em Deus olha para o passado e por ele compreende o futuro.
A primeira Leitura deste Domingo, o XI Domingo Comum B, é tirada do Livro do Profeta Ezequiel (Ezequiel 17,22-24). Ezequiel nasceu em 620 antes de Cristo, em Jerusalém, na época do rei Josias. Em 597 os judeus são deportados para Babilônia e Ezequiel também.
O sofrimento dos exilados era muito grande; sobretudo porque se encontravam longe da pátria, de Jerusalém e do Templo. A tentação da dúvida e do desespero ameaçava profundamente os Judeus. Muitos pensavam: o nosso Deus abandonou o seu povo; os deuses pagãos levaram a melhor sobre o Deus de Israel!. Isto não era verdade. Deus nunca abandona os que O amam. Apenas os coloca em provações. Tudo o que relatamos parece repetir-se. Os povos do mundo inteiro quase ignoram Deus para confiar apenas nas leis dos governantes e na técnica.

A humanidade um dia, voltará para Deus? A parábola do filho pródigo é sempre atual… Voltemos ao convívio íntimo com Deus, e seremos salvos.
«O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra», nos diz o Evangelho deste Domingo (Marcos 4,26-34). Como ajudá-la a crescer e a dar fruto?

O processo de desenvolvimento da semente é um fato misterioso. O Reino de Deus cresce não por virtude ou mérito dos apóstolos, mas com a força da graça de Deus. São Paulo dirá aos Coríntios (1 Cor 3, 6-7): «Eu plantei, Apolo regou, mas foi Deus quem deu o crescimento». «Assim, nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus faz crescer».
Mas o plantar e regar é ou não imperativo e imprescindível?

Claro que sim. Jesus fundou a Igreja e conta com os leigos, os sacerdotes e os Bispos, para que o Reino de Deus se dilate.
Basta que falhe alguma das partes para que a ação de cada pessoa seja um fracasso.

Qualidades humanas, cultura intelectual, e vida de santidade são dados inseparáveis. As pessoas muito ativas, mas onde falta a vida de oração, de frequência dos sacramentos, Santa Missa e comunhão, confissão frequente, direção espiritual, meditação, exame diário de consciência, recitação diária da Liturgia das Horas, reza diária do Terço, outras práticas de devoção a Nossa Senhora, devoção ao Anjo da Guarda, a São José, etc, fazem muito barulho mas não conseguem levedar o meio em que vivem.
Estamos convencidos de que em primeiro lugar está a santidade e só depois a ação? Corremos todos o risco de muita operosidade e pouca santidade.

Rezemos, façamos sacrifícios, transformemos o trabalho em oração, mantenhamos a união com Deus ao longo do dia e Deus fará o resto.

terça-feira, 2 de junho de 2015

No Senhor está a misericórdia e a abundante Redenção.
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 13:37 0 comentários


 

O demônio, pai da mentira, conseguiu enganar os nossos primeiros pais e ao longo da história da humanidade tem continuado, com suas artimanhas, tentar seduzir os homens.

Frente a tanto engano, logo após a primeira queda, Deus, nosso Pai bondoso, prometeu Alguém, que da descendência da mulher, haveria de esmagar a cabeça da serpente enganadora. E a promessa foi cumprida com a criação de Maria Imaculada, a bendita entre todas as mulheres, que viria a ser a Mãe puríssima de Jesus, Redentor da Humanidade. Apoiados nele e na intercessão valiosa de Maria Santíssima, sempre encontraremos as forças necessárias para resistir às tentações do mundo, do demônio e da carne. Pois nele e só nele está a misericórdia e a abundante Redenção.

Não foi fácil enganar os nossos primeiros pais. Neles ainda não existiam inclinações para o mal. Apesar disso, o demônio conseguiu vencê-los levando-os a duvidarem do Amor que Deus lhes tinha e neles fazer despertar o orgulho de sua importância, a tal ponto que passaram a ver no Senhor, não um Amigo, como sempre foi e é, mas como um rival.

O demônio, que existe mesmo para aqueles que o queiram esquecer ou negar, com maior facilidade nos tenta, apontando-nos caminhos errados da vida. Conta com as nossas inclinações para o mal. Como pai da mentira, que é, estimula os enganos do poder, do orgulho pessoal, da vaidade, do ódio, da sensualidade. Para a divulgação destas mentiras, recorre tantas vezes aos meios poderosíssimos da comunicação social que hoje existem. Em tal aproveitamento se comprovam as afirmações de Jesus, quando, a propósito, nos diz que “os filhos das trevas são mais prudentes, que os filhos da luz”.

Jesus, nosso Redentor, não nos deixou a sós nos caminhos da vida. Ele mesmo continua conosco. Está realmente presente na Santíssima Eucaristia e identifica-se com todos os nossos irmãos, a começar com as crianças, pobres, marginalizados, doentes e presos. Ter fé, para O ver e encontrar, deve ser uma preocupação constante da nossa vida. Com Ele, onipotente e infinitamente bom, todas as dificuldades, por maiores que sejam, serão vencidas. Para a conservação e aumento desta virtude fundamental da fé, que ilumina e dá sentido ao nosso caminhar na vida, é necessário e sempre urgente o recurso à oração, à intercessão da Santíssima Virgem, Mãe de Deus e também nossa terna Mãe do Céu, à escuta e meditação da Palavra de Deus e à frequência dos Sacramentos, nomeadamente da Penitência e da Eucaristia, ao jejum, à esmola, à aceitação dos sacrifícios que a vida nos proporcione, numa total conformidade com a vontade do Senhor.

Confiemos ao Senhor a nossa vida e a nossa luta de cada dia, sabendo que Ele nunca nos abandonará neste nosso peregrinar rumo ao céu.

CARTA ÀS AUTORIDADES DOS MUNÍCIPIOS DE ABRANGÊNCIA DA DIOCESE DE FREDERICO WESTPHALEN SOBRE O RISCO DA IDEOLOGIA DO GÊNERO NO PME.
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 05:52 0 comentários




DOM ANTONIO CARLOS ROSSI KELLER
PELA GRAÇA DE DEUS E DA SANTA SÉ APOSTÓLICA
BISPO DE FREDERICO WESTPHALEN (RS)

CARTA ÀS AUTORIDADES MUNICIPAIS

Frederico Westphalen, 02 de junho de 2015.

Aos Excelentíssimos Senhores
Prefeitos Municipais,
Secretários de Educação
Vereadores

Municípios da Diocese de Frederico Westphalen

                              

                                               Excelentíssimos senhores,

                                               Antes de tudo, envio-lhes a minha saudação de Paz no Senhor Jesus.

                                               A razão de endereçar esta CARTA fundamenta-se na minha responsabilidade de Bispo Diocesano, pastor e servidor desta Igreja Diocesana. Meu ministério episcopal não permite que eu me cale, frente a um gravíssimo risco que o tempo presente nos oferece.

                                               Neste exato momento ocorrem discussões por todo o Brasil sobre os planos estaduais e municipais de educação, os quais devem ser elaborados em conformidade com o Plano Nacional de Educação (PNE) aprovado pelo Congresso Nacional em junho de 2014.

Universalização do ensino, percentuais de investimento e qualificação dos professores constituem tópicos naturais de debate. Contudo, venho chamar a máxima atenção dos senhores contra o grave perigo da inclusão nos planos de educação municipais da denominada “ideologia de gênero”.

Pois bem, os defensores da ideologia de gênero utilizam o falso argumento do combate à discriminação de gênero para promover uma campanha que tem por consequência a destruição da família como instituição fundamental da sociedade. Isso acontece porque não defendem a igualdade entre homens e mulheres (o que sempre se chamou de igualdade de gênero), mas exatamente o contrário, dizendo que ninguém é homem ou mulher por nascimento e, portanto, que qualquer pessoa pode se considerar homem ou mulher, independentemente dos aspectos biológicos.

O Congresso Nacional acertou ao retirar do Plano Nacional de Educação (PNE) toda e qualquer referência à ideologia de gênero, normalmente feita por meio das expressões “igualdade de gênero”, “igualdade de orientação sexual” e “igualdade de identidade sexual”, entre outras, pois são expressões vagas e ambíguas, abertas à manipulação ideológica e sem fundamento jurídico.

A Constituição brasileira reconhece a família como base da sociedade e, por isso, merecedora de especial proteção do Estado. Em verdade, a família detém a prerrogativa de decidir soberanamente sobre a formação e condução de seus membros, conforme seus costumes e crenças. Não cabe ao sistema educacional interferir nesse domínio, pois a constituição da pessoa enquanto pessoa se dá no âmbito privado. A interferência do Estado, por meio da regulação do ensino nas escolas públicas e privadas, desrespeita a prioridade da família em educar e formar seus filhos.

O grave perigo pelo qual passamos é constatável em notícias recentes, como:

a) a liberação da utilização do “nome social” nas escolas, à revelia dos pais (se o aluno João, registrado com o nome de João, pedir para ser chamado de Maria, assim deverá ser chamado pelos professores, sem que os pais do aluno sejam consultados!)

b) a possibilidade de um garoto, que simplesmente se declare mulher(!), por exemplo, utilizar o banheiro feminino. Como dito acima, esses temas são delicados e devem ser resolvidos, em primeiro lugar, pelas famílias, sem intervenção do Estado e de qualquer grupo ou partido político.

Portanto, peço aos senhores, homens e mulheres em defesa do bem de sua comunidade, para que analisem com cuidado o projeto de lei relativo ao plano de educação do seu município, a fim de assegurar uma educação igualitária, universal e de qualidade, mas sem arbitrariedades de cunho ideológico, cujas consequências são terríveis e fogem ao nosso controle.

Agradecendo a atenção dispensada, coloco-me sempre à inteira disposição de todos.

+ Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen

segunda-feira, 1 de junho de 2015

NOTA PASTORAL SOBRE O RISCO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO NO PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 03:23 0 comentários




DOM ANTONIO CARLOS ROSSI KELLER

PELA GRAÇA DE DEUS E DA SANTA SÉ APOSTÓLICA

BISPO DE FREDERICO WESTPHALEN (RS)

 
NOTA PASTORAL SOBRE O RISCO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO NO PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO

Prezados sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, fiéis cristãos leigos em geral e demais pessoas de boa vontade da nossa Diocese de Frederico Westphalen (RS), dirijo-lhes esta Nota Pastoral para expor um assunto da máxima importância nos nossos dias: a tentativa de implantação da perigosa, mas pouco conhecida, “ideologia de gênero” no Plano Municipal de Educação (PME) de nossos municípios.
Desejo, portanto, caríssimos irmãos, expor, em três pontos, uma breve orientação a fim de que cada um em seus meios lembre-se de que não fomos chamados à indiferença ante os problemas que nos afligem, mas, sim, a ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14), pois tudo o que, de algum modo, diz respeito ao homem de hoje, interessa à Igreja (cf. Gaudium et Spes n. 1).

1. Ideologia de gênero: em síntese, que é?
Para levar aos queridos diocesanos uma explanação segura sobre a ideologia de gênero, divido a exposição em dois breves tópicos, ou seja, o aspecto antropológico no qual se funda a doutrina do gender e o aspecto teológico, aquele que mostra o quanto essa ideologia é malévola e contrárias aos planos de Deus.
a) A face antropológica
O termo gênero (ou gender), que começou a ser difundido nas décadas de 1960 e 1970 visa revolucionar a antropologia apregoando que o sexo masculino ou feminino dado pela Biologia não tem valor, pois o que vale é a construção da identidade sexual psicológica dada pelas culturas nas diversas fases da história.
Assim, ser homem ou mulher não é característica inata, mas mero procedimento aprendido na família e na escola de cada nação, de modo que o homem poderia escolher ser mulher e vice-versa. Mais: decorre dessa ideologia tão denunciada por estudiosos de renome que “o mesmo indivíduo pode optar indiferentemente pelo heterossexualismo, pelo homossexualismo, pelo lesbianismo ou até pelo transexualismo. Não haveria, na origem de cada ser humano, um menino ou uma menina, mas um indivíduo[1]”.
Esse indivíduo escolheria – contra a Biologia – aquilo que deseja ser. No entanto, se a natureza biológica conhece somente o homem e a mulher, a ideologia de gênero apregoa que alguém pode ser homem, mulher ou neutro (nem um nem outro). Afinal, seria a sociedade com seus estereótipos que atribuiria a cada indivíduo suas funções, passando por cima das características fisiológicas de cada um.
Em suma, ninguém nasceria masculino ou feminino, mas apenas indivíduos que podem tornar-se masculinos, femininos ou neutros de acordo com a cultura de seu tempo ou com a educação recebida na escola ou em casa.
Aqui se entende a razão pela qual os ideólogos de gênero se interessam por se imporem nos planos de ensino, seja em nível nacional, estadual ou municipal: como sabem que as famílias, via de regra, abominam espontaneamente uma doutrina tão contrária à natureza, partem para a instrução artificial das crianças a fim de que elas, depois de bem doutrinadas pela ideologia de gênero, instruam seus pais e amigos... Seria o fim da família e do próprio ser humano reduzido à condição de mero peão em um sórdido jogo de xadrez[2].

b) O aspecto teológico
No aspecto teológico, a ideologia de gênero é uma afronta ao projeto de Deus para a humanidade. É a criatura tentando tomar o lugar do Criador e recriar o ser humano com o sopro revolucionário mundano a fim de apagar nele, se possível fosse, o sopro divino insuflado na sua criação, conforme a linguagem bíblica de Gênesis 2,7.
Em seu discurso de 21 de dezembro de 2012 à Cúria Romana, o Papa Bento XVI já lançava, corroborando com o que dissemos acima, uma ampla advertência quanto ao uso do “termo ‘gênero’ como nova filosofia da sexualidade”. Dizia ele que “o homem contesta o fato de possuir uma natureza pré-constituída pela sua corporeidade, que caracteriza o ser humano. Nega a sua própria natureza, decidindo que esta não lhe é dada como um fato pré-constituído, mas é ele próprio quem a cria. De acordo com a narração bíblica da criação, pertence à essência da criatura humana ter sido criada por Deus como homem ou como mulher. Esta dualidade é essencial para o ser humano, como Deus o fez. É precisamente esta dualidade como ponto de partida que é contestada. Deixou de ser válido aquilo que se lê na narração da criação: ‘Ele os criou homem e mulher’ (Gn 1,27). Isto deixou de ser válido, para valer que não foi Ele que os criou homem e mulher; mas teria sido a sociedade a determiná-lo até agora, ao passo que agora somos nós mesmos a decidir sobre isto. Homem e mulher como realidade da criação, como natureza da pessoa humana, já não existem. O homem contesta a sua própria natureza”.
O Papa Bento abordou a ideologia de gênero outra vez, quase um mês mais tarde, em 19 de janeiro de 2013, dizendo que “os Pastores da Igreja – a qual é ‘coluna e sustentáculo da verdade’ (1Tm 3,15) – têm o dever de alertar contra estas derivas tanto os fiéis católicos como qualquer pessoa de boa vontade e de razão reta”. Isso é o que, na condição de Bispo desta Diocese de Frederico Westphalen, faço com esta Nota Pastoral no cumprimento de um grave dever de consciência, diante de Deus, da Igreja e da sociedade em geral.
Também o Papa Francisco, na Audiência Geral de 15 de abril último, disse algo muito importante e pontual sobre o tema que estamos tratando. Falava ele: “Pergunto-me, por exemplo, se a chamada teoria do gênero não é expressão de uma frustração e resignação, com a finalidade de cancelar a diferença sexual por não saber mais como lidar com ela. Neste caso, corremos o risco de retroceder”.
“A eliminação da diferença, com efeito, é um problema, não uma solução. Para resolver seus problemas de relação, o homem e a mulher devem dialogar mais, escutando-se, conhecendo-se e amando-se mais”.
Em suma, tentar distorcer os planos divinos nunca leva o ser humano à maior felicidade; ao contrário, o conduz a não poucos e nem pequenos desatinos, conforme os que vemos hoje em quaisquer noticiários, frutos amargos da rejeição de Deus em seus santos desígnios de amor para conosco.

2. O direito e o dever do católico se manifestar
É certo que ao tomarem conhecimento desta Nota Pastoral, alguns poderão repetir um velho chavão muito usado quando lhes convém. É o seguinte: no Estado laico não há lugar para a fala da Igreja ou dos fiéis católicos. Ora, a esse pensamento seletista e excludente – que não é laico, mas laicista ou perseguidor da religião – o Compêndio da Doutrina Social da Igreja responde, em seu n. 572:O princípio da laicidade comporta o respeito de toda confissão religiosa por parte do Estado, que assegura o livre exercício das atividades cultuais, espirituais, culturais e caritativas das comunidades dos crentes. Numa sociedade pluralista, a laicidade é um lugar de comunicação entre as diferentes tradições espirituais e a nação[3]”.
“Infelizmente permanecem ainda, inclusive nas sociedades democráticas, expressões de laicismo intolerante, que hostilizam qualquer forma de relevância política e cultural da fé, procurando desqualificar o empenho social e político dos cristãos, porque se reconhecem nas verdades ensinadas pela Igreja e obedecem ao dever moral de ser coerentes com a própria consciência; chega-se também e mais radicalmente a negar a própria ética natural.”
“Esta negação, que prospecta uma condição de anarquia moral cuja consequência é a prepotência do mais forte sobre o mais fraco, não pode ser acolhida por nenhuma forma legítima de pluralismo, porque mina as próprias bases da convivência humana. À luz deste estado de coisas, ‘a marginalização do Cristianismo não poderia ajudar ao projeto de uma sociedade futura e à concórdia entre os povos; seria, pelo contrário, uma ameaça para os próprios fundamentos espirituais e culturais da civilização’” [4].
Portanto, argumentar que o Estado sendo laico não pode acolher a opinião das pessoas de fé e de boa vontade, é defender o laicismo mais agressivo e intolerante para com milhões de cidadãos consideradas por esses argumentadores como pessoas de segunda classe: serviriam para eleger seus representantes, mas não poderiam cobrar deles uma educação capaz de levar em conta a lei natural moral em um tempo no qual nossas crianças e adolescentes mais precisam de retas e sadias orientações.

3. Conclamação aos fiéis católicos e pessoas de boa vontade
Desejo, pois, com esta Nota Pastoral, conclamar a todos para, de modo respeitoso, mas firme, se oporem, à ideologia de gênero – tão contrária aos planos de Deus – a ameaçar as crianças e adolescentes de nossas escolas.
A Igreja não está e nem se posiciona contra as pessoas, mas tem o dever grave de orientar a todos sobre os riscos e perigos que afetam o ser humano, como filhos e filhas de Deus.
Cabe aos fiéis católicos, aos cristãos em geral e às pessoas de boa vontade alertar os parentes, amigos, vizinhos etc. a respeito dessa malévola doutrina exposta no item 1 desta Nota para que as muitas vozes contrárias à inserção da ideologia de gênero sejam ouvidas pelos ilustres representantes do povo e, consequentemente, excluída do PME (Plano Municipal de Educação) de nossos municípios.
Abençoo a todos com suas famílias desejando que São José, defensor da Sagrada Família de Nazaré, interceda por todos nós hoje e sempre.

  Frederico Westphalen, 01 de junho de 2015.

+Antônio Carlos Rossi Keller
Bispo de Frederico Westphalen






[1] D. Estevão Bettencourt, OSB. Pergunte e Responderemos n. 519, setembro de 2005, p. 392.
[2] Jorge Scala. Ideologia de gênero: o neototalitarismo e a morte da família, Katechesis/Artpress, 2011.
[3] JOÃO PAULO II, Discurso ao Corpo Diplomático (12 de Janeiro de 2004), 3: L’Osservatore Romano, ed. em Português, 17 de Janeiro de 2004, p. 7.
[4] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Nota Doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política (24 de Novembro de 2002), 6: Libreria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano 2002, p. 15.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Deus quer viver em familiaridade conosco.
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 19:54 0 comentários


 
 

A fé ensina-nos que Deus é uma comunidade de Três Pessoas e um só Deus verdadeiro e nos chama à comunhão com Ele, nesta vida e para sempre, no Céu.
Participamos da vida de Deus na terra, pela graça santificante recebida no Batismo e recuperada – todas as vezes que for preciso, no Sacramento da Reconciliação e Penitência –, e somos chamados a viver em comunhão com a Santíssima Trindade, para sempre, no Céu.

As pessoas que perderam a fé ou que nunca a tiveram, vivem como se Deus não existisse e nada mais houvesse depois desta vida. Querem reduzir-nos à condição de animais, para quem tudo acaba com a morte.
Nunca estamos sós!. «Considera hoje e medita no teu coração que o Senhor é o único Deus, no alto dos céus e cá em baixo na terra, e não há outro.», nos diz a 1ª Leitura deste Domingo da Santíssima trindade, tirada do Livro do Deuteronômio (4,32-34.39-40).

Desde o Batismo que fomos constituídos templos de Deus, Tabernáculos da Santíssima Trindade. É por isso que a Igreja trata com todo o respeito e profundo carinho o corpo humano, mesmo já inanimado.

Deus habita em nós, de modo que, se quisermos, nunca vamos nos encontrar na solidão, porque Ele está conosco para dialogar e nos dar ajuda.
Muitas pessoas metem-se no ruído e agitação, porque têm medo de se encontrarem face a face com Ele, para conhecer a verdade das suas vidas.

Deus vence a nossa solidão. «Cumprirás as suas leis e os seus mandamentos, que hoje te prescrevo, para seres feliz, tu e os teus filhos depois de ti.», continua a nos dizer a 1ª Leitura.
Para estarmos em comunhão com Deus, temos de fazer um esforço e viver na Sua graça... e este não será verdadeiro se não cumprimos os Mandamentos.

S. Paulo fala-nos desta vocação admirável que recebemos: «Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”. Vós não recebestes um espírito de escravidão para recair no temor, mas o Espírito de adoção filial, pelo qual exclamamos: “Abba, Pai”.» (Romanos 15).
Muitas vezes, as pessoas que se encontram conosco tentam arrastar-nos para a infelicidade; ou então, mesmo quando têm boa vontade, não conseguem dar resposta a todas as nossas dúvidas nem resolver os nossos problemas. Deus pode, porque é omnipotente, a sabedoria e bondade infinitas.

As Três Pessoas da Santíssima Trindade são as nossas companheiras, de dia e de noite. Basta que nos recolhamos um momento no silêncio, para podermos falar com Elas.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

V CAMINHADA DA FÉ
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 09:40 0 comentários

Jovens da Diocese de Frederico Westphalen, percorrem 80 km a pé, em direção a Três Passos, local do martírio dos beatos Manuel e Adílio.

Recebei o Espírito Santo...
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 05:46 0 comentários


 


 

O divino Consolador atua na Igreja ao longo dos séculos e renova-a com a Sua ação divina. Por isso a Igreja é sempre antiga e sempre nova. Os vários impérios foram-se desmoronando com o andar dos tempos, a Igreja permanece para sempre, porque é animada e guiada pelo Espírito Santo.
Cada ano a Igreja nos convida a crescer na devoção ao Divino Consolador, à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ele é tantas vezes o grande desconhecido ou, pelo menos, o grande esquecido. E sem Ele não podemos fazer o mais pequeno ato bom: “Ninguém pode dizer Senhor Jesus a não ser pela ação do Espírito Santo” (2º leitura deste Domingo, 1ª Coríntios 12,3b-7.12-13).
Avivemos, neste dia, o nosso desejo de O conhecer melhor e de lembrá-Lo mais vezes em cada dia. Peçamos que renove o nosso coração e transforme a face da terra.
Ele é o fogo do Amor de Deus, que jorra na Trindade e une o Pai e o Verbo desde toda a eternidade.
Por isso dizemos no Credo “que procede do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma glória”.
Peçamos ao Divino Consolador que nos ajude a penetrar no mistério dessa vida infinita da Trindade.
Só guiados pelo amor o poderemos conseguir. Temos de ser almas de oração, pessoas que procuram viver na intimidade de Deus.
O Espírito Paráclito atua na Igreja, nos Apóstolos e os seus sucessores. Guia-os e ilumina-os.
E atua na alma de cada um dos fiéis. Santifica-nos, realiza em nós o projeto maravilhoso de Deus que nos chama à santidade.
Ele trabalha para configurar-nos à imagem de Jesus Cristo. ”Deus predestinou-nos para sermos à imagem de Seu Filho” (Romanos 8,29). O Paráclito está em nós, pela graça, que nos torna filhos de Deus, filhos no Filho. Ensina-nos a viver como filhos e a tratá-Lo com a simplicidade de meninos pequenos “Todos vós sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus…E uma vez que sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Abbá! Pai!. De maneira que não és servo, mas filho e também herdeiro por obra de Deus” (Galatas 3,26 e 4.6-7)
Ser santo é parecer-se com Jesus em toda a nossa vida e o Espírito Santo, se O deixarmos atuar, vai realizando em nós essa obra divina, como artista maravilhoso, que imprime em nós o retrato vivo de Jesus. Estejamos atentos ao Divino Paráclito. Deixemo-nos conduzir por Ele, não estorvemos a Sua ação em nós. “A tradição cristã resumiu a atitude que devemos adotar perante o Espírito Santo: docilidade. Ser sensíveis ao que o Espírito Divino promove à nossa volta e em nós mesmos: aos carismas que distribui, aos movimentos e instituições que suscita, aos afetos e decisões que faz nascer em nosso coração” (JOSEMARIA ESCRIVÁ, Cristo que passa,130)

terça-feira, 31 de março de 2015

Ide dizer aos Seus discípulos
Dom Antonio Carlos Rossi Keller 03:27 0 comentários


 

 

 
 
Celebramos neste domingo, a Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. É a festa das festas, que se renova a cada domingo na Igreja, com a celebração da Eucaristia Dominical.

No dia de Páscoa as mulheres que foram ao túmulo de manhã cedo receberam o encargo de anunciar a ressurreição do Senhor. Primeiro dos anjos, depois do próprio Jesus, que lhes apareceu no caminho.

Os discípulos de Emaús sentiram também a necessidade de virem comunicar aos amigos a aparição de Jesus, que, sentado à mesa, repetira o milagre da Última Ceia. Apesar de terem de fazer uma longa viagem pela noite dentro. Porque a sua alegria não cabia no seu coração.

Que bom se todos os cristãos sentissem a mesma alegria em cada missa e a necessidade de a transmitir aos seus amigos. Não ficariam tantos e tantos sem missa. Vamos nós abrir os olhos neste dia de Páscoa, vamos encher-nos de fé e de amor ao Senhor, para que a Sua alegria penetre em nossos corações e a possamos transmitir aos outros com entusiasmo.

A nova evangelização que a Igreja nos pede há de ter este sentido pascal de fé, de alegria, de certeza da vitória de Cristo. O mundo, sobretudo este mundo ocidental, que pôs a sua segurança nas riquezas materiais, precisa do anúncio da verdadeira felicidade que só Cristo ressuscitado lhe pode trazer.

Temos de ser nós os cristãos, com o nosso exemplo de fé e de alegria e a nossa palavra cheia de vibração, a levar os que nos rodeiam ao encontro de Cristo ressuscitado.

Saibamos oferecer sacrifícios e rezar por aqueles que não valorizam especialmente a Santa Missa dominical, e não tenhamos vergonha de chamar os nossos amigos e os nossos familiares para que venham participar conosco. Contamos com a força que nos vem de Cristo ressuscitado, que quer salvar todos os homens.

A Igreja felicita Maria neste tempo pela ressurreição de Seu Filho. Que Ela nos encha de alegria pascal para celebrar com mais fé e entusiasmo a Sua presença viva na Eucaristia.

Aproveito o ensejo desta reflexão, para saudar a todos, e desejar uma Santa e Feliz Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

“Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no  e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus , não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte. Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu e acreditou.” (João 20,6-8)
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